Itaperuna e o asfalto de R$ 31 milhões: o edital que levanta dúvidas em meio à crise - por Nathalia Schwartz
Em meio a cortes, contenções e discursos de austeridade, o prefeito Emanuel Medeiros Nel lançou um edital que reacendeu o debate sobre transparência e prioridades públicas em Itaperuna.
Trata-se do Edital nº 006/2025, no valor global estimado de R$ 31.580.056,98, destinado à “futura e eventual contratação de empresa especializada em pavimentação, conservação, manutenção e melhorias operacionais nos logradouros e rodovias do município”.
O edital de modalidade Concorrência Eletrônica, com sessão marcada para 11 de novembro de 2025, às 8h59 foi publicado no Portal da Transparência e no site oficial de licitações públicas. O modelo adotado é o de registro de preços, que permite contratações fracionadas sem a necessidade de novas licitações, dentro do teto de R$ 31,5 milhões.
Na prática esse formato dá grande liberdade de execução ao Executivo municipal, tornando essencial a fiscalização técnica e legislativa sobre cada contrato firmado.
O ponto que chama atenção é o momento em que o edital é lançado. Poucas semanas antes, o próprio prefeito havia assinado o Decreto Municipal nº 7.659/2025, que reduziu a carga horária dos servidores, suspendeu horas extras, cortou gratificações e limitou o expediente da prefeitura, alegando crise financeira e necessidade de “equilíbrio fiscal”.
Enquanto isso, o novo registro de preços somado à licitação anterior de R$ 19 milhões para limpeza urbana levanta questionamentos sobre as prioridades orçamentárias do governo municipal.
Nas ruas, a realidade contrasta com os números milionários. Buracos, poeira e lama cercam o Hospital São José do Avaí e se espalham por bairros como Cidade Nova, Niterói e Aeroporto, onde o asfalto cede e a mobilidade é precária.
A Câmara Municipal, composta por 13 vereadores, segue em silêncio. Nenhum parlamentar apresentou questionamento formal sobre o edital ou os critérios técnicos que justificam o valor.
“Dizem que são R$ 31 milhões em asfalto, mas o que a gente vê é só poeira. Onde está esse dinheiro?”, protesta um morador do bairro Cidade Nova.
O edital não apresenta, de forma pública, quais vias serão contempladas, prazos de execução ou mecanismos de fiscalização, o que reforça o clima de desconfiança.
Com salários congelados, expediente reduzido e licitações milionárias em andamento, cresce entre os itaperunenses o sentimento de descrédito e indignação.
Afinal, o asfalto de R$ 31 milhões vai realmente chegar às ruas — ou desaparecer nas curvas do poder em Itaperuna?
Por Nathália Schwartz

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